A modernidade trouxe liberdade às mulheres, que hoje garantem para si boas e promissoras carreiras profissionais, longe de fogões e tanques. Também, deu-lhes uma vida amorosa mais prazerosa do que imposta, escolhendo entre aquele, este ou nenhum. E a vida da mulher seria um conto de fadas moderno, se não existisse o ‘se’. Se a guerra não tivesse sido declarada.Tem pessoa achando que o programa já é gente, tira a foto e emenda: “Depois você pede para o Photoshop tirar as minhas manchas e essa espinha daqui?”.A distorção da realidade é tendência interplanetária! Os franceses começaram a se preocupar com esse ‘fenônomeno photoshopariano’, e por lá já existe um projeto de lei em andamento para proibir, ou ao menos limitar, o uso de imagens alteradas pelo rei da perfeição. Assim, na França, se a lei for aprovada, os anúncios serão obrigados a informar a manipulação de imagens, algo como: “Esta imagem foi alterada digitalmente e pode não corresponder à realidade”. Iniciativa bacana, e ousada para o momento em que vivemos, onde uma imagem é tudo, ser não é nada e atitude é zero. Palmas aos franceses!
Teve gente que não gostou, principalmente os que ‘photoshopiam’ por aí, ali e aqui. O que seria da Vip e da Playboy, caso esta lei fosse implantada no Brasil? E da Nova, Boa Forma, Claudia e demais. A Veja também caiu em tentação, na verdade foi um escorregão. Recentemente, não lembro o mês, mãe e filha estampavam a capa da magazine, era a modelo Daniella Sarahyba e sua mãe. Elas ilustravam a matéria “Jovens por mais tempo - Os sem-idade”, acerca do aumento da expectativa de vida aliada à longevidade. Bingo! A mãe da modelo realmente parecia não ter idade, aos 50 e poucos anos, ela matinha, na capa da revista, os mesmos traços da filha de 20 e poucos: rosto sem rugas, sem marcas de expressão, uma face exageradamente jovial e escandalosamente ‘photoshopiada’.
O argumento daqueles que defendem o Photoshop é de que as pessoas sabem que aquela imagem não é real, por isso não seria necessário a especificidade desta não-realidade. A advertência das imagens modificadas seria como obrigar as rádios a avisar o ouvinte que “aquela voz foi gravada em estúdio e otimizada por um técnico de áudio e não corresponde à voz real de determinado cantor ”, defenderam os ‘photoshopmaníacos’.
O fato é que nunca vi ninguém fazendo gargarejos ininterruptamente para ter uma boa voz e nem exercitando as cordas vocais para que elas ficassem mais ou menos toante. O que vejo são mulheres frenéticas, fazendo assiduamente exercícios em barras, em cochonetes e cama elástica. Querem bunda empinada, seio firmes e barrigas saradas. Quando a academia não adianta mais, que é o que geralmente acontece, elas passam a se amontoar em filas quilométricas, esperando um seio novo, uma barriga sequinha e uma bunda menos mole, através da lipoaspiração. É a busca desenfreada por uma beleza que jamais será alcançada.
Obrigar os publicitários a serem mais realista é colaborar para a queda dos distúrbios alimentares, que é exacerbadamente maior nas mulheres do que nos homens. É um freio àquelas que se mostram obcecadas pela magreza e às que se sentem excessivamente pressionadas a corresponderem às imagens presentes na mídia. Afinal, eu nunca vi ninguém reclamando dos playback da Kely Key, mas já vi muita gente falando da celulite dela que saltou para fora , devido à saia curta demais. Todo mundo achou feio. Manias de quem já enxerga tudo ‘photoshopiado’.
PS: Este texto foi editorial do Jornal Correio do Cidadão, no final do ano passado. Sou péssima com datas, não sei exatamente quando foi publicado, mas acredito que o tema tá em voga.
Eu gostaria de contar que tive meses difíceis há um tempo. E conto escrevendo, porque falando, apostem, eu choro. Por um tempo não encontrava respostas para coisas triviais e achava que por isso estava me afundando. É verdade que a maioria se perde em meio a tantas perguntas e dúvidas típicas da transição adolescência – vida adulta, e em partes isso se deve à falta de diálogo durante o crescimento. Eu nunca deixei que invadissem minha bolha e, por isso, levo parte da culpa pela irresponsabilidade e/ou imaturidade com que encarei parte da época teen. Culpa porque não aceitava conversar, porque achava que auto-suficiência e independência eram a mesma coisa ou, obrigatoriamente, andavam lado a lado. Então, um dia, ganhei um caderno em branco de uma pessoa que admiro muito. Admiro pela forma como soluciona os problemas e não os deixa interferir na sua essência. Felicidade. Como essa pessoa, percebi que o desabafo, ainda que para mim mesma, despertava uma sensação de alívio, mesmo que inicialmente momentâneo.




