“No final das contas, matar minha mãe foi bem fácil. A demência, conforme desponta, tem o poder de revelar o âmago da pessoa afetada. O âmago de mamãe era podre como a água fétida de um vaso de flores mortas”.
Assim, leve, começa Quase Noite, de Alice Sebold. Li o primeiro capítulo, mas dele não passei. Fiquei pensando nisso e depois assisti à condenação de Alexandre Nardoni pelo assassinato da filha.
Filha morta pelo pai, de acordo com a Justiça, na vida real. Mãe morta pela filha, na ficção.
(...)
Minha mãe passou uma semana inteira sem falar comigo.
Assim, sem nem me explicar o motivo. Eu o adivinho, mas não me arrependo nem um pouco, muito menos acumulo alguma culpa por conta dele.
Não cheguei a me sentir mal com o silêncio, mas sei que deveria. Mãe como sou, tenho dimensão da intensidade do relacionamento que existe (ou deveria haver) entre nós, mas por mais que eu tente e queira, nunca chega a isso. Para mim, ela é só uma estranha. Uma estranha com quem eu sempre tento ser simpática.
Uma estranha que retribui a simpatia, mas uma estranha.
Algumas vezes eu gostaria de entender isso, não tanto quanto gostaria de ter uma mãe para mim, uma daquelas estilo inteira, pacote completo, o que tento com o Totonho (mas também não sei se dará certo). Cruel, você que me está lendo, deve pensar. Sim, não nego, em nenhuma outra situação me sinto tão tirana como nessa (mas não sou ruim ao ponto de dizer isso para ela, e isso deve somar alguns pontos). Sei que me sinto mal quando esqueço de fingir que não me aflijo com isso. Por mim e por minha mãe. Dói.
De vez em quando eu gostaria de poder sentar com ela, contar as aflições do trabalho, aber como ela se sente, pedir um conselho sobre alguma possibilidade de um relacionamento, mostrar a música que descobri e é da época dela, o livro que ela poderia gostar... Procurando bem, da mãe que quis para mim encontro inteiro apenas um episódio. Ela, que deixou para o meu pai a tarefa de contar que existia menstruação, que nunca soube pela minha boca de um namorado, que não me aconselhou a nada que não fosse absolutamente casual, que me pediu para não ir para a universidade... Ela foi a primeira pessoa da família para quem falei da gravidez, por telefone e por extrema necessidade, mas foi a primeira a manifestar apoio. Não foi pouco, ainda que inesperado.
Eu sei que ela não é uma má pessoa, pelo contrário, sei que é boa - e generosa, sim, Paulinha, às vezes admito.Só não é a mãe que eu queria ter, a que eu um dia pretendo ser. Para mim não, mas quem sabe meus irmãos pensem diferente e o erro esteja nessa pecinha aqui. Não sei. Hoje eu queria saber o que é uma relação ideal entre mãe e filha, só isso. Cansei de tentar reverter o quadro e imaginar.
P.s.: ela voltou a falar comigo e eu não pretendo matá-la. Só para que fique claro.